MUDAMOS

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Músicas. Drogas. Paixões. Livros. Ódio.
Um celular. Nenhuma ligação nova.
Nada de mensagens, e-mails, sinais de fumaça.
Beijos de adeus, nem pensar.
É isso, nada mais. Ela foi embora. Ele ficou. O quarto, afinal de contas, era dele. Mas todos os pequenos detalhes ali dentro lembravam a garota que foi embora e levou todos os discos do velvet underground. Os livros do Yeats também se foram, mas o resto da biblioteca ficou, o aficcionado por literatura era ele.
Além dos livros, alguns discos, os pôsteres das paredes; sobrou também um buraco maior que um canyon dentro do seu peito. Também restou um pouco de dor. Na verdade muita dor. Houve lágrimas, houve gritos, houve silêncio, silêncio durante muito tempo. Ele queria acreditar em deus, pensou que pelo menos haveria alguém a quem culpar por tudo o que estava acontecendo.
Mas toda culpa caiu sobre ele. Era ele quem fumava demais, quem bebia demais, quem trazia drogas demais para dentro daquele quarto sujo e apertado. Ele encontrou milhões de motivos para que ela o tivesse deixado. Nenhum estava próximo do que aconteceu de verdade.
Ela sabia que ele tinha defeitos, todos têm, não é?!
Não foram os defeitos dele que a fizeram sair pela porta de entrada no meio da madrugada, com uma mala cheia de roupas e alguns livros e discos debaixo do braço. O que acabou com tudo foi à insegurança. O medo. A dúvida.
O medo idiota de um dia acordar e achar que talvez ele não estivesse mais ali, de que ele poderia deixa-la sem nenhum motivo maior; insegurança fodeu com o que valia a pena. No início, dentro daquele quarto brotava amor e todas essas impertinências humanas, mas que valiam a pena. No final, só restaram os vícios, as emoções podres, nada do que valia a pena.
E o medo de ser deixada, acabou vencendo. Ela preferiu deixar, afinal, além de culpa e um pouco de dor, ela não sentiria mais nada. Idiota ele, que não o fez antes. O pobre idiota chora, não entende e se droga. Daqui algumas horas ele vai ter uma overdose, vai morrer e será esquecido em alguns anos.
Tudo que ela vai sentir é um pouco de culpa, um pouco a mais do que sentiu quando saiu do quarto e não deixou nenhuma carta assinada. Nenhum bilhete. Nenhuma mensagem. Nada.
Ela foi embora. Ele também. Logo, os dois serão esquecidos.

se não é assim, foi parecido

João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém. João foi para o Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história.

Nada melhor que ler esse textículo do bom, e já morto, Carlos Drummond de Andrade, e ele se torna ainda melhor quando, além de tudo, o dia em questão é o dia dos namorados. Não há dia mais deprimente para o pobre infeliz que não dá sorte no amor do que um dia que o faça lembrar disso. E o dia dos namorados não tem utilidade maior para o solteiro que lembra-lo, da mesma forma que um outdoor com letras garrafais lembra o motorista da promoção que está rolando no shopping da cidade, de que é o dia de sua infelicidade maior.
Queria estar mentindo, mas sei bem o que é passar um dia desses sabendo que as pessoas que você já amou, gostou, se apaixonou, estão em algum outro lugar, nem se lembrando de sua existência, se divertindo em restaurantes caros ou em botecos sujos de alguma esquina qualquer.
No poema de Drummond temos o pobre João que ama e não é correspondido pois quem ele ama, ama outro e assim por diante, tirando é claro a mais feliz de todos, Lili, a moça de nome esquisito. Ela que não amava se casa com o homem que não estava na história, pode-se dizer que o dia dos namorados para ela foi ao mínimo divertido. João zarpou para outro país, talvez a dor por ter sido rejeitado tenha sido grande demais; Tereza, desistiu de tudo e se entregou a deus; Raimundo teve sorte e foi dessa para outra perdendo a chance de sofrer ainda mais; Maria continuou e continuou sem ninguém; Joaquim, o único corajoso da turma preferiu fugir antes que a coisa fodesse mais e se mandou dessa vidinha medíocre.
Certamente Joaquim acabou com a vida numa banheira suja ouvindo alguma música triste; não duvido se me disserem que foi em algum dia dos namorados como esse que acabou de passar, Joaquim, Joaquim, esse sim sabia o que devia fazer. Mesmo assim, eu o chamo de fracote.
Agora, o que me deixa angustiado de verdade, é saber que nessa história, eu posso ser qualquer um, claro, com algumas pequenas mudanças no sexo das personagens qualquer uma delas me valeria. Mas entre seis, apenas uma se deu bem, e o resto, dá pra ver que a vida, ou o destino, ou deus, ou o diabo, não se preocupou muito com a felicidade deles.
Já que não me cabe desejar que sejam felizes e que achem rápido alguém pra dividir as alegrias e as tristezas, então desejo, ah, não desejo nada. A ninguém e nem a mim mesmo.

i must be the one

É sobre amor que escrevem os grandes escritores.
E os pequenos que lidem com temas mundanos. Arte. Inócuo. Efêmero. Tudo passa a todo o momento. E o que fica é bem menos do que se espera. Cheios de incertezas, vamos atrás do que nos falta. Procuramos nomes falsos em bíblias antigas, quem dera ter ao menos um personagem como Jesus, o nazareno. Não escrevo sobre grandes maravilhas, estaria feliz se escrevesse qualquer porcaria, mas me falta zelo. Preciso de um selo para te enviar as cartas que escrevi no inverno do ano passado. Talvez aquilo tenha sido meu grande momento. Escrevi sobre amor e essas bobeiras da vida.
Meus discos de tango estão velhos e riscados. Terei de comprar novos na semana que vem. Mas se ela não vier, o que farei? Esquecerei-me nessa sala, nessa poltrona suada e fedida. Lá vou eu com meu hábito de falar sobre amor. Um verme pobre como eu, tentando entender o mundo dos adultos, cheios de invariações e insuflações. Intumescidos. Sem espaço para respirar ainda me vêm dizer que gostariam de peidar. Sei bem o que querem. Ou será que sei apenas mentir?
Nem mentiras conto bem. Curtas pernas. Pernas curtas. Qual a diferença. Esse português e suas insipiências. Ainda bem que não sou um grande escritor. Não preciso me preocupar. Só não diga para me calar sobre o amor. É apenas sobre isso que posso lhe contar. Detalhes. Ou não.
Vou me calar.

Outro motivo para odiar

"Sadness is a gentle mind
But a good women has her hands to use"
                                         Cat Power

Odeio não saber o que fazer.
Odeio não ser o que fazer quando estou com você.
A verdade é que eu nunca sei o que fazer quando estou assim. Portanto, odeio estar assim. Assim como, talvez me perguntem. Eu respondo, com toda sinceridade, que odeio estar assim, desse jeito que eu não sei muito bem explicar.
Se tivesse que parar e pensar no que ando sentido diria, devo estar apaixonado, mas se eu afirmar isso, vou afirmar que estou fadado ao fracasso, como sempre e sempre de novo. Minha falta de sorte, minha completa falta de sorte, é ela que sempre acaba por me ferrar. Mas dessa vez não queria ter que me importar com muitas coisas, não sei bem o que dizer, não sei mesmo o que fazer.
Céus como estou confuso e eu odeio estar confuso. Odeio muitas coisas na verdade, odeio saber que possivelmente só vou me magoar e magoar quem eu gosto tanto, mas nem sempre tenho a chance de escolher não fazer coisas que odeio.
Deveria mandar tudo isso aqui pro inferno, tudo que está aqui, tudo que está longe daqui, deveria simplesmente desistir.
Caralho, estou cansado, cansado de verdade. Me cansei de odiar todas as coisas que não consigo entender. Nem escrever direito eu to conseguindo, mas dane-se tudo.
Como sempre estou sem saber o que fazer e odeio isso. O que importa é que tudo vai passar e você possivelmente não vai saber que era por você que eu odiava não saber o que fazer.

Um lugar como outro qualquer

Esta é a história de um garoto.
Esta é a história de uma garota.
Está é a história de nenhum de nós.
Esta é a história de qualquer um de nós.
Todos sozinhos, caminhando por ruas e avenidas, em uma cidade cinza e vazia. Seria esse o retrato da tristeza mórbida que assola cada um de nós, quando estamos sozinhos, quando estamos debaixo da água que cai do chuveiro, quando temos nossos sonhos adiados por pequenos detalhes da vida que nos derrotou no momento em que nela chegamos.
Pequenos seres extraordinários, sem ter para onde ir, sem ter lugar algum para chegar. Caminhando por suas ruas e avenidas sujas, inócuas, sem brilho, sem contraste, sem cor. Esperando por um fim que tarda a chegar, que como tortura, nunca se aproxima do final; seguimos em frente.
O que nos mantém: uma espécie de esperança descrente, sem sentidos, sem motivos, sem vida, porque não é mais vida, mas simples sobrevivênvia. Amor fati, nem ele nos mantêm mais, somos, então,  preenchidos com a sensação de que a sombra esconde um pouco mais do sol a cada momento deixado para trás. O fim é o acaso que tanto almejamos.
Ilusões perdidas, esperanças partidas como as flores que lhe entregaram no momento em que resolvi partir. E agora, bem, agora não há nada. Apenas o caminhar vazio, o barulho seco da sola de meus sapatos que esfolam, ou são esfolados, pelo asfalto desta cidade soturna.
Este é um mundo triste, escuro, quase que esquecido, mas nunca deixou de ser vivido. Este é o amor; despedaçado, varrido, consumido, porém, sempre lembrado, pois é a tortura que nos enche de angustia até derradeiro momento. É o amargo preço cobrado por tudo que se chama de vida.
A garota agora chora.
O garoto caminha para longe.
Não há nenhum de nós para consolá-los.
Mas estamos todos observá-los.
Esta é a históra de qualquer um de nós.

Leve tudo embora

 

Então seu mundo está se tornando cada vez mais vazio e silencioso. As paredes já foram pintadas de cinza e mais uma mão de tinta, se tornarão pretas. Nada de cor, nada de sorrisos, nada de frases apaixonadas. Estaremos trancafiados em celas separadas. E um dia nem nossas lembranças nos manterão aquecidos.

Você deita sua cabeça sobre o travesseiro e chora as últimas lágrimas que ainda podem cair, mas não se preocupe, logo tudo isso vai passar, daqui a pouco ficará mais fácil suportar. Tenho certeza que caso você não se preocupe, dias mais dia menos, vai se acostumar com tudo isso.

Mas sabe, antes de você se trancar ai dentro pra esquecer a deus e o mundo, eu preciso te dizer, preciso dizer que te amo. Agora sim, vai lá, fique por lá e pode me esquecer. Essa é sua escolha, é a sua vontade não é?!

Ela me deu as costas, nos olhos à maquiagem borrada era o resquício de humanidade que ainda havia. O vazio estava ali, tomando conta de cada pedaço. Não foi necessário esperar um ano, em um dia você já estava com sua roupa de domingo, pronta para me esquecer.
Assim se deu tudo, no fim, eu fui pelo meu caminho, você ficou para trás, num canto sujo e escuro. Todas as luzes foram apagadas, por mim ou por você, não sei, mas não havia nada para iluminar.

Um dia esqueci daquele canto que abri para você dentro de mim, quando voltei, levei comigo uma luz, resolvi te dar perdão e mais um abraço, queria dizer que você podia ir. Caminhei até aquele quarto lacrado e ao abrir a porta, para minha surpresa, não havia ninguém.
Sua última peça, você me pegou, ganhou de mim mais uma vez.

Obrigado.

Não ousaras

Aqui estão as palavras que não ousava escrever. Elas estão implícitas em tudo o que faço, em tudo o que digo, em tudo o que escrevo, em tudo que vivo, mas ainda assim, não são ditas em momento algum. As palavras que tenho medo de escrever estão ao meu redor, logo não haverá mais como lhes esconder.
Tenho andado confuso, se fosse um pouco mais sincero diria estar perdido, mas estar perdido significa não ter controle algum sobre nada e jamais admitiria que não tenho controle sobre meu futuro. Não acredito em destino, não acredito em nada além das mentiras poupadas nestes dias ensolarados.
Não tenho quem culpar por meus erros e isso me dá a liberdade de correr todos os riscos, de viver todos os segundos, de esquecer todos os passados. E lá vou eu novamente, tentando chegar a um lugar que eu nem sei qual é.
Ando me perguntando o que resta a todos em um mundo onde perseguimos apenas aquilo que não podemos ter? A máxima filosófica de alguém, que não sei quem é, permanece forte e viva, João continua a amar Maria que ama José que não ama ninguém.
Essas não são as palavras que não ouso escrever. Tenho medo delas, tenho medo das perguntas que elas podem responder. Prefiro a dúvida.
Sendo que assim, tudo o que esperam de mim, é meu fim.

Alice e sentimentos indefinidos.

Uma sala de cinema, escura, tantos pensamentos me ocorrem enquanto na tela branca, várias fotografias são mostradas em uma velocidade tão alta que nos dão a impressão de movimento. Pobre cérebro humano, enganado por tão bobas ilusões. Essa ilusão criada pelo cinema atinge nossas emoções, nossas sensações, nossos pensamentos, alguém poderia dizer que aquelas imagens chegam tão fundo em nós que atingem nossos corações.
Acredito que ontem, enquanto assistia a um filme, um curta-metragem de não mais que vinte minutos, fui tocado lá no fundo. Nunca vivi uma situação parecida com a dos protagonistas do tal filme. Não me lembro do nome do cara, mas da garota sim, Alice, esse também era o nome do pequeno filme. Alice e o Cara, já que não me lembro do nome vou lhe conceder a honra de ser “o Cara” e não um outro cara qualquer.
Sem muitas explicações de início, logo percebo o que está acontecendo. Alice foi para Londres, não sei porque, mas estava lá até a morte de seu pai; o Cara ficou por aqui. Não ia ser possível continuar com o relacionamento à distância, mas os dois ainda sentiam algo um pelo outro, se é amor, não sei, mas algum sentimento ainda existia, isso estava estampado nos rostos cheio de esperança de um reencontro.
Alice está em São Paulo; o Cara, também. E eles se procuram, querem se encontrar, querem se ver mais uma vez, talvez para se lembrar de todos os sentimentos que ainda não foram esquecidos completamente, talvez para dizer coisas que ainda não tiveram a oportunidade de falar um para o outro, quem sabe, apenas para matar a saudade que o tempo trouxe com ele. As ligações que são atendidas pela secretária eletrônica nos explicam o que está acontecendo. Ele recebeu o recado, sabe que Alice está em São Paulo e não quer esperar por outra ligação que nem sabe se vai ser feita, tenta ligar pra ela, mas ela não está em casa. Ela também liga outras vezes, mas ele está a sua procura nas ruas da grande cidade da garoa. O jocking club, o edifício mais alto da cidade, o banquinho no parque, a ponte sobre o viaduto, eles passam por todos os lugares que significavam algo. Mas os dois nunca se encontram. Ele vê a cidade de um lado, talvez imaginando, ‘onde está Alice, ela precisa saber a falta que me faz’, ela olha do alto do prédio, vê ruas, altos de casas e também não sabe onde está o Cara. Ela chora, ele sente.
Durante o filme, pensava, o amor não move o destino. Era uma sensação esquisita de alegria e tristeza, que era sentida em arrepios e calafrios. Um sorriso se fazia no meu rosto quando numa das cenas mais belas, um palhaço, com roupa listrada e maquiagem branca, pára em frente à bela menina (que talvez nem fosse tão bela assim, mas a mágica do daquele filme a encheu de toda beleza do mundo) e após mostrar seu número de malabarismo lhe estende o chapéu e no chapéu, havia uma flor. Ela sorri em agradecimento. Ao fundo, uma música, parecia um samba do Cartola, foi terrivelmente bonito ver aquilo. Em outra cena, vemos o Cara correndo atrás de Alice, ele corre mesmo sem saber para onde ir. O palhaço cruza com ele, o Cara olha mas não sabe que esse mesmo palhaço viu Alice a alguns momentos atrás. São pequenos momentos que mostram como tudo é pequeno demais, como tudo é frágil demais, como é fácil perder e é difícil ter de volta.
Acho que o que me tocou nesse filme, foi na verdade uma crônica que li, o nome era ‘O amor acaba’. Não me lembrei da crônica enquanto via o filme, mas agora que escrevo sobre o que pensei e senti, ela me veio à cabeça. A autora escreve o seguinte: ‘uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba’, mas o amor não acabou nos desencontros do casal apaixonado. Isso se vê no momento do encontro, no final, depois de tudo, enquanto ele toca o vidro cheio de uma alegria dolorida e ela diz, eu não posso mais sair, ele fala apenas ‘você continua linda’. Lágrimas, sorrisos, o contato que não existe. Eu te ligo. Depois de tantas ligações perdidas, ele diz que ligaria. Ele sempre teve a certeza de que ela procurava por ele, ela tinha a mesma certeza. Mas ela tem que ir embora, isso não é um conto de fadas. E então ela vai a direção do avião que a levará para a realidade, para longe dos contos de fadas que não acontecem. Apesar de tudo, o amor não os manteve juntos.

Os créditos e mais outra canção; dessa vez achei que fosse Elis, mas me enganei também. O filme terminou e eu sabia que nota daria para ele.

Rafael Gomes dirigiu um pequeno tratado sobre o amor nos tempos modernos. Talvez esteja exagerando, mas que se dane, não sou nada além de um espectador.

about you - jesus and mary chain
colours and kids - cat power
needle in the hay - elliott smith
wise up - aimee man
the boy done wrong again - belle & sebastian


Fora de ordem, mas esse é meu Top 5 para músicas que me deixam triste, não importa a hora que eu ouço, não importa o quão alegre eu estou, tocou alguma dessas, ferrou. Não sei porque montei esse topo 5, não gosto de listinhas, mas como já havia pensado nessas músicas resolvi colocá-las em algum lugar onde outras pessoas possam vê-las.
Elas me dão um gancho pra falar de outra coisa. Falar da minha relação com a música. Com a música pop, ou como diria Umberto Eco, a música gastronômica.
Tenho que dizer que não saberia viver no silêncio, não conseguiria ficar a vida inteira sem ouvir essas pérolas de quatro, cinco minutos, que são capazes de me trazer tantos sentimentos e sensações. Pode ser que seja Kitsch, não importa. São as sensações, a emoção que a música passa que valem no fim das contas.
Sentar e ouvir, sei lá, cat power por exemplo, a cada suspiro dela, uma facada no peito, ouvir um disco inteiro dessa garota e não sentir os estômago gelar, o peito se contrair é impossível. O violão invoca a tristeza, a voz a completa. É quase uma seção de masoquismo, mas vale a pena, toda dor é capaz de renovar. O que mata são as lembranças que podem estar associadas a música, e se elas não forem boas, esteja preparado para um belo dia perdido na fossa.
Nostalgia, alegria, tristeza, euforia, enfim, são várias as sensações que as músicas são capazes de propiciar. Elas também são cheias de significados estritamente pessoais, cada música tem um valor para cada pessoa. Tem gente que consegue dar um significado especial a música de bandas como calypso e, infelizmente, eu não posso julgá-las.
Não sei por que fico escrevendo aqui, mas acho que já é o suficiente por hoje.

cat power.kingsport town

i am trying to break your heart.

Não, não quero partir o coração de ninguém, não gosto de fazer isso.
Mas estou ouvindo wilco, e pensando, em milhares de coisas na verdade, e pensar nelas não ajuda em nada, não agora. Não ajuda em nada ficar na frente de um computador, não adianta nada ouvir músicas que só falam aquilo que eu quero ouvir. Acho que é hora de fazer outras coisas com a vida.
Na verdade acho que o que anda complicando tudo é a vida, eu continuo insistindo em tentar entende-la, e ela continua insistindo em não ser entendida, afinal qual seria a graça de entender tudo o que significa estar vivo, pode ser que não signifique nada em especial e devo dizer que não seria nada legal descobrir isso à uma da manhã de um domingo.
O que incomoda é não saber como funcionam as coisas simples, sabe, amor, alegria, tristeza, melancolia, ok, não são simples, são sentimentos e isso já é o suficiente pra perceber como são complicadas, mas são essas as coisas que importam, não são? O que seria da vida sem sentimentos, o que seria da vida sem esse tempero básico, acho que seria mais tedioso do que já é.
Hoje fui ao cinema, conheci melhor algumas pessoas, foi um dia bom, alegre, e se tiver que parar pra pensar nele, iria fechar esse documento e arrumar algo útil pra fazer, mas acho que escrever é útil, pelo menos por enquanto.
Já está tocando outra música, essa é uma das que eu gosto bastante, radio cure, do wilco também. Fico imaginado, quando eu estiver lá pelos meus trinta e poucos anos e ouvir essas músicas de novo, o que será que vai vir a minha cabeça? Será que vou me alegrar das lembranças que as músicas trarão? Pensar no que eu vou pensar do hoje quando eu estiver no futuro, parece tentador, mas não faz sentido algum, com certeza iria ficar angustiado.
Noite passada fiz coisas que não estava muito afim de fazer, não me arrependo, mas não faria de novo, não tão cedo, não vale a pena, não vale mesmo. Parece que é uma tentativa de fuga, não era, mas poderia ser.
Escrever está me deixando deprimido.
Deveria parar, acho que vou mesmo, ficar por aqui, espero sonhar com coisas legais essa noite, espero entender que nada é do jeito que eu quero, porque se fosse, eu iria achar bem mais entediante.

Boa noite. E boa sorte.

E ela se cansou.

a morte bateu
ninguém abriu
bateu de novo
ninguém a ouviu

levantou a foice
e a sala invadiu
tirou da vida um
dois, três
e tantos mais

o tempo passou
e desse trabalho
ela se cansou
nunca outro ela matou

no ínicio alegria por todos os cantos
mas uma hora todos se cansaram
e logo se perguntaram
de que adianta viver
se nunca você vai morrer?

No fim de outra estação.

Lá se foram tantas estações
e mais outro outono chegou,
o tempo continua passando
e eu ando me sentindo velho demais.

Meu coração continua chorando
por aquela garota que tocava piano,
que cantava tristes canções,
que dizia que o amor era tudo que ela queria.

Ando me sentindo velho demais,
procurando verdades nas estações que me deixaram,
me escondendo nas mentiras das canções que tocaram.
O tempo continua passando.

Me vencendo, me deixando para trás,
parece que ele vai vencer,
levando tudo que eu tenho
e deixando apenas as feridas mais doloridas.

Os únicos que ainda me ouvem
são meus velhos discos empoeirados,
mas até eles estão me cansando;
pra onde irei quando eles me abandonarem?

As nuvens já estão se fechando,
as folhas amareladas já estão no chão,
o verão terminou na semana passada
e agora sim, me sinto velho demais pra mais outra canção.

Nesse velho e surrado caderno
tantas palavras já foram riscadas,
chegou a hora de deitar e esperar
a última das estações pra me levar.


every little thing you are looking for is exactly what you will never find.

Nós podemos partir seu coração,
basta pedir.
Lhe daremos um pouco de amor
e o arrancaremos sem avisar.
Você vai chorar
pode ser que venha gritar,
mas seremos profissionais
e não iremos cobrar.
Basta pedir,
e lhe daremos algo para lembrar.

São crianças como você

Sem saber o que dizer, o pobre garoto, que estava mortificado pelo medo, falou.
"Sabe, é que às vezes eu gosto de você, muito mesmo."
A menina, linda, o grande primeiro amor do menino, sorriu. Olhou bem nos olhos dele e continuou sorrindo. Não foi tanto tempo quanto pareceu, mas para o garoto foi uma eternidade. Depois da suposta eternidade, ela piscou e suavemente perguntou.
"E como você sabe que gosta de mim?"
Ok, ela pegou o menino, ele não tinha pensado sobre o que sentia, se ele sentisse já era o suficiente, não era? Bem, parece que pra nossa linda menina, não era.
“Ah, eu sei. Quem sabe sente, não tem como explicar.”
“Claro que tem.”
“Não tem, é sentimento sabe, eu só sei que queima dentro do meu peito e parece encher meu estomago com uma coisa gelada.”
O pobre garoto já estava suando, gaguejava, não pretendia revelar a linda garota seus sentimentos por ela e quando teve coragem de fazê-lo, ela vem com essas perguntas as quais o garoto não sabia muito bem como responder. Ele respirou e continuou.
“Quando eu to longe de você só fico pensando em como você deve estar, ahn, como deve estar vestida, no que deve estar pensando, se tá pensando em mim e coisas assim. E também digo que gosto de você porque você faz a vida valer a pena pra mim, não sei bem o que significa, vi num filme, mas acho que o cara sentia a mesma coisa que eu.”
Enquanto isso, ao redor deles o mundo simplesmente se aquietou, parecia que todos queriam ouvir a explicação do garoto, as árvores, o vento, os pássaros, as ondas. Nada se movia e mesmo que tudo desmoronasse as duas crianças nunca se dariam conta.
E então, depois de algum silêncio, a menina, tímida, não era mais a princesa inabalável de antes, mas uma menina que também não sabia o que ia dizer, contou ao garoto.
“Eu acho que sinto a mesma coisa.”
O que eles iriam fazer agora? Eles vão se beijar, alguém deve ter pensado, mas estes dois não, são apenas crianças e nesse mundo colorido da infância existem coisas mais importantes a se preocupar do que beijos.
“Vamos fazer um castelo de areia?”
“Vamos, vamos sim.”
E lá foram os dois, de mãos dadas, pela enseada da praia. Ele pensando “foi mais fácil do que eu pensei”; ela pensando “ele gosta de mim e isso é tão legal.”

Stratopumas . Adeus ao mundo virtual
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